"Veja bem, meu bem..." cantam Camelo e Amarante em uma gravação caseira que encontrei por aqui. O fenômeno; distância - Atrai os chas-chas-chas que a leitura de romances latino-americanos me fizeram ouvir nos últimos dias. Afasta cada ritmo, que sem cautela agita o coração a ponto de derramar o sentimentalismo fingido e pretensioso. Digo "últimos", sabendo que só darei o título de música permanente, quando terminar a também última carta que prometi enviar. Até então... Besteira! Há algum tempo não ouvia Los Hermanos, talvez seja medo de encontrar qualquer resposta, qualquer indicação do erro cometido no ano que passou. Existe uma verdade agora, uma que é propriamente minha... Daquela que te arrasta para perto das coisas, e aumenta num gesto abrupto tudo o que há em volta. Mas costuma voltar ao normal, a mesma normalidade caseira, retrógrada, de cortinas esvoaçando com vento do meio-dia e traças de casulo avançando poucos milímetros longe dos olhos curiosos de crianças no quintal.
Não nego que penso nela, penso nos dias que não tivemos juntos, nas promessas que não cumpri graças a minha falta de astúcia em perceber o erro dos outros. "Veja bem, meu bem..." Saudade, ansiedade, leviandade. Às segundas-feiras penso no azul, mesmo quando presencio a precipitação das nuvens em me fazer chegar atrasado no trabalho, trânsito, sapatos molhados. A felicidade está em perceber o medo de ser infeliz. Voltei a pensar em mim, altruísmo tem o ritmo do leva-e-traz. Não terminarei a tal última carta, quebrarei promessa, dormirei em cama de motel e fumarei cigarros imaginários. Autocomiseração funciona em poesia visceral. "Veja bem, meu bem..." enquanto você não crescer, estarei aqui me aventurando em romances latino-americanos e escrevendo às segundas-feiras. Boa noite, segunda-feira.
(Esboço e rabisco em capa de caderno escolar - Sem Ilustração - Raphael Alfandary - Bon dilluns a la nit /catalão)
segunda-feira, dezembro 20
segunda-feira, dezembro 13
- "Quiçá"
Imagine... Imagine que exista explicação para determinados acontecimentos, aos quais ninguém parece ocioso o bastante para pensar e decidir respondê-los sem que precise compartilhá-los. Inflar o ego, dizer nomes próprios em voz alta enquanto corta o próprio cabelo ou desata o nó daquela gravata extravagante. Talvez sejam sempre menos interessantes; Explicações beiram a ordem e cronometragem, lembram relógios, professores ébrios de matemática. Alertam o erro e dedução, não estamos sozinhos por aqui. Poeira das estrelas, esferas gasosas de não sei lá quantos metros cúbicos rodopiando em um tempo de imensidão sem tendões. Enquanto ouço a voz de um cantor que sugere que tiremos o pai da forca com imediata precisão, caminho longe da definição que ronda mentes explicativas. Explicações levam a séculos de contrapropostas e inimizades, traçam retas enquanto o “x” da questão está entre outras letras enredadas por círculos e nomenclaturas. Pretendo ignorar enquanto posso virar a cara no ápice da teimosia, dane-se a utilidade da alavanca, ampulheta, fio-dental. Não quero mover montanhas, catar grãos, vá de ressaca. Mostre o pulso como gueixa e espere condenação, quiçá, quizás, quiçá e outra tentação. Explicar-se envolve maneirismos, tentativas, pretensão... Imagine que não exista explicação.
(Cadernos de anotações, "Quiçá" - Raphael Alfandary - Ilustração - Leif Podhajsky).
(Cadernos de anotações, "Quiçá" - Raphael Alfandary - Ilustração - Leif Podhajsky).
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